Na Liberté sabemos o que muda quando há trabalho digno. Por isso celebramos uma conquista que sentimos como nossa: nossa cozinha, «Cocina Liberté», está habilitada como PUPAA (Pequeña Unidad Productiva de Alimentos Artesanales) comunitária. Somos a primeira PUPAA comunitária autogerida por pessoas em situação de cárcere habilitada na Argentina.
O que é uma PUPAA
As PUPAA são pequenas unidades que elaboram alimentos artesanais, de baixa escala e baixo risco sanitário, em cozinhas individuais ou comunitárias. Surgiram com a Resolução 150/2020 do Ministerio de Desarrollo Agrario da Província de Buenos Aires, que criou o Registro Provincial de Pequeñas Unidades Productivas de Alimentos Artesanales (publicada no Boletim Oficial em 4 de dezembro de 2020).
A ideia é passar de uma abordagem punitiva para uma preventiva e educativa: reconhecer as produções de pequena escala — com forte enraizamento territorial — e integrá-las ao sistema alimentar formal. O processo é gratuito, com rastreabilidade por código QR, capacitação de quem produz e habilitação sanitária provincial. As PUPAA podem ser individuais ou comunitárias.
Uma habilitação que é uma conquista histórica
Nossa unidade está inscrita como PUPAA N° 02-045-000032, habilitada como PUPAA Comunitária pelo Ministerio de Desarrollo Agrario bonaerense em agosto de 2023. Funciona dentro da Unidad Penal N°15 de Batán e elabora uma ampla variedade de produtos: pães, alfajores, conitos com doce de leite, biscoitos e bolachas, caldas, conservas em vinagre, amendoins caramelizados, frutas e legumes desidratados, bases de pizza e tortas fritas, entre outros.
Os dados do certificado revelam a dimensão formal da conquista: o titular é a Cooperativa de Trabajo Liberté (CUIT 30-71797124-4) e o estabelecimento figura inscrito como «Cocina Liberté» no Registro Provincial de Pequeñas Unidades Productivas de Alimentos Artesanales, pelo expediente EX-2023-31976580-GDEBA-DSTAMDAGP.
Na qualidade de titular da PUPAA N° 02-045-000032 Cocina Liberté, localizada na Ruta 88 Km 8.5, na localidade de Batán, partido de General Pueyrredón, encontra-se habilitada como PUPAA Comunitária.
O fato de o Estado provincial reconhecer e habilitar uma cozinha autogerida por pessoas em situação de cárcere tem um peso que vai muito além do administrativo: demonstra que, com apoio e oportunidades, dentro de uma prisão também se produz trabalho formal, de qualidade e com valor agregado.
O trabalho e as redes que tornaram isso possível
Esta conquista é coletiva, mas tem um primeiro impulso com nome próprio: a ideia nasceu de uma proposta de Erica Echeveste, colaboradora da Liberté, que sugeriu começar pelo concreto — adequar a cozinha às condições necessárias e ministrar os cursos de manipulação de alimentos. Dali, da formação e da preparação do espaço, cresceu tudo o mais. Mas Erica não ficou apenas na ideia: segue participando das atividades de culinária saudável e responsável — já cozinhamos junto com ela — e acompanha a Liberté em cada proposta, assim como Jorge Taylor.
No caminho, foi fundamental a presença do médico veterinário Jorge Taylor — docente da Universidad Nacional de Hurlingham (UNAHUR) e diretor do Programa de Elaboração Segura de Alimentos (PESAL) —, que naquele momento era inspetor de PUPAA e esteve presente na prisão, na Liberté, para verificar o espaço e conceder a habilitação. Tudo se entrelaça com nossa aposta pela soberania alimentar e com a Diplomatura Cultivando Soberanía da Universidad Liberté.
Uma cozinha que sustenta a vida comunitária
Antes de tudo, a cozinha sustenta o cotidiano da Liberté: com o que se elabora funcionam o refeitório comunitário e o café da manhã comunitário, e se recebe com carinho quem nos visita para conhecer o espaço. É também o espaço de aula dos cursos de gastronomia ministrados na Liberté com certificação da Universidad Liberté: aprende-se o ofício elaborando alimentos que depois são compartilhados por toda a comunidade Liberté.
Por que isso importa para nós
Uma PUPAA é muito mais do que um registro: é uma forma de reconhecer o trabalho de pequena escala e dar-lhe lugar no sistema formal. Para nós significa produzir alimentos saudáveis, seguros e artesanais a partir do cárcere e formar-se em um ofício. E significa, sobretudo, demonstrar que com oportunidades também se constrói futuro dentro de uma prisão: trabalho digno, feito com as próprias mãos e com identidade.