Proyecto Mecha encerra: as caixas de sugestões de Batán foram abolidas

Em maio de 2026 se confirmou o que durante meses se mantinha como rumor: o Pavilhão 7 da Unidad 15 de Batán não volta a ser pavilhão de isolamento. As reformas feitas ao longo de 2025 não eram transitórias. Os buzones foram definitivamente abolidos. Após nove anos de campanhas, denúncias e um programa de rádio montado sem autorização institucional, Projeto Mecha anuncia seu encerramento por objetivo cumprido.

A organização foi fundada em 7 de novembro de 2017 por Pampa Aguirreal, integrante de Liberté, com um único propósito: abolir os buzones na prisão de Batán. Hoje isso foi cumprido. Não houve ato oficial nem resolução com carimbo. Houve constatação in situ e um contato informal com a chefia do Servicio Penitenciario em La Plata. O Pavilhão 7 agora é um pavilhão comum como qualquer outro.

Um esclarecimento prévio

O fechamento dos buzones foi obra de uma rede muito mais ampla do que qualquer nome que apareça nesta matéria. Juízes com resoluções, advogados e defensores com demandas sustentadas, pessoas em situação de cárcere enfrentando o castigo a cada dia, familiares sofrendo de fora e também funcionários penitenciários que viram — e veem — que esse castigo é ilegal. Sem esse tecido, o visível e o invisível, nada do que se conta aqui teria sido possível.

Como começou

A origem não foi um plano. Foi uma represália. Em 2017, o Taller Solidario Liberté tinha um conflito com o Servicio Penitenciario bonaerense, que pretendia ficar com metade da produção. Mario Juliano, padrinho de Liberté naquele momento, tentou o diálogo. Esgotou as instâncias.

Nesses dias Mario passou pelo Taller e deixou uma frase:

Já acenderam a mecha, que não se apague.

Mario Juliano, em uma visita ao Taller nos dias do conflito pela propina do Servicio Penitenciario bonaerense

Essa frase ficaria depois como nome do projeto.

Em uma sexta-feira à noite, sem justificativa formal, levaram Pampa para os buzones. Ficou lá sábado e domingo. Na segunda-feira o soltaram. Enquanto esteve preso viu o que viviam as demais pessoas em situação de cárcere: isolamento extremo, deterioração física e mental, castigo sem amparo legal.

No domingo do confinamento — 22 de outubro de 2017, dia das eleições legislativas — estava em uma cela sem luz, sem água, sem comunicação. Tinha um papel e uma vela. Com isso anotou o objetivo de um projeto que ainda não existia: abolir os buzones. E fez uma promessa a si mesmo.

Papel manuscrito com o nome 'Projeto Mecha' rodeado por um círculo, anotações sobre direitos humanos, tolerância, paz e amor
O papel original onde se anotou a ideia do Projeto Mecha, escrito em uma cela de isolamento da Unidad 15 de Batán no domingo 22 de outubro de 2017.

Me prometi deixar a barba crescer até que os buzones em Batán acabassem. Esses quatro dias em isolamento eu não pude me barbear. Hoje já foram abolidos. E a barba — já me acostumei — vou deixar do mesmo jeito.

Pampa Aguirreal, fundador do Projeto Mecha

7 de novembro de 2017: dois anúncios ao mesmo tempo

Saiu dos buzones numa segunda-feira. Duas semanas depois, na terça-feira 7 de novembro de 2017, realizou-se uma jornada de Portas Abertas no Taller Solidario Liberté de Batán. Naquela tarde foram feitos dois anúncios simultâneos no mesmo espaço. Mario Juliano comunicou a criação de um dispositivo, ainda sem nome, para trabalhar junto ao Servicio Penitenciario no fechamento definitivo da área de isolamento. Pampa anunciou o lançamento do Projeto Mecha.

Captura do Facebook de Mario Alberto Juliano de 7 de novembro de 2017: foto de Mario ao lado de Pampa diante do cartaz do Taller Solidario Liberté, com o texto do compromisso pelo fechamento da área de isolamento
Publicação de Mario Juliano de 7 de novembro de 2017 anunciando o compromisso pelo fechamento da área de isolamento, em uma jornada de Portas Abertas do Taller Solidario Liberté de Batán.

A simultaneidade não foi coincidência, mas tampouco foi coordenação prévia. Mario levava anos pensando em como desativar os buzones, e em paralelo já trabalhava na montagem do dispositivo junto a Diana Márquez — hoje presidente da Sociedad Argentina de Justicia Restaurativa — e Adolfo Christen, da Asociación Pensamiento Penal, entre outras pessoas de fora. De Liberté não os conheciam naquele momento. Eram duas linhas que avançavam separadamente. O cruzamento entre elas viria muito tempo depois.

O Comité de Prevención y Solución de Conflictos (CPySC) é gerido pelo Servicio Penitenciario bonaerense e hoje funciona, rudimentarmente, em todas as prisões da província. Liberté co-fundou o CPySC e fez parte dele durante anos, retirando-se por decisão própria. 

As ações

O Projeto Mecha lançou uma campanha internacional chamada Basta de Aislamiento. A peça gráfica mais difundida trazia o lema "Aislamiento es tortura. Tortura nunca más", produzida junto à Comisión Provincial por la Memoria e à Asociación Pensamiento Penal. Uma página no Facebook, hoje encerrada, sustentou a divulgação durante anos.

Flyer da campanha: foto de um vaso sanitário de cela de isolamento, com o lema 'Aislamiento es tortura. Tortura nunca más' e os logos da CPM, APP e Projeto Mecha
Peça central da campanha Basta de Aislamiento, em aliança com a Comisión Provincial por la Memoria e a Asociación Pensamiento Penal.
Peça gráfica do Projeto Mecha em fundo azul escuro com a equação visual AIS + LA + MIEN + TO = -1, abaixo o texto NO Suma. RESTA., a hashtag #BastaDeAislamiento e o lema 'la mecha está encendida'
Outra peça da mesma campanha. A metáfora aritmética: o isolamento não soma, subtrai humanidade. Divulgada com a hashtag #BastaDeAislamiento.

Uma contribuição forte veio da artista Betina Ferrara, com o vídeo Basta de Jaulas. Josefina Ignacio, madrinha de Liberté naquela etapa, interveio em um momento crítico para evitar a transferência dos integrantes do Taller para outras unidades. A medida havia sido prevista como castigo coletivo e foi desativada pela sua atuação. Esse dado não era público até hoje. Juan A., da Comunidade Pastoral Universitária (CPU) de Batán, acompanhou desde o início.

A segunda etapa

Em 2018, quando Pampa se concentrou mais em Liberté, a coordenação do Projeto Mecha passou para Canela Melina Bella, que depois se tornou um ponto de denúncia da Comisión Provincial por la Memoria. Quando os compromissos de Canela já não lhe permitiram continuar, e ao mesmo tempo o objetivo central começava a estar próximo, decidiu-se aguentar até o fechamento formal dos buzones para dar por encerrada a organização.

Quando me coube coordenar a segunda etapa foi muito gratificante. Senti que fui curando cicatrizes e tentando devolver um pouco de cor em meio a tanta escuridão.

Canela Melina Bella

28 de dezembro de 2018: a primeira apresentação judicial

Sob a coordenação de Canela, a organização deu um passo institucional. Em 28 de dezembro de 2018 foi protocolado no Juzgado de Ejecución Penal N°1 de Mar del Plata o primeiro pedido formal de abolição das celas de isolamento. O documento não foi redigido por advogados: foi escrito pelas próprias pessoas que viveram o isolamento na pele — pessoas em situação de cárcere, egressas e egressos.

Captura do Facebook do Projeto MECHA de 29 de dezembro de 2018 intitulada 'LA GOTA QUE HORADA LA PIEDRA', com foto do documento protocolado no Juzgado de Ejecución Penal N°1 com carimbo de 28 DIC 2018
O anúncio na página do Projeto Mecha no dia seguinte: "LA GOTA QUE HORADA LA PIEDRA". O documento protocolado por Canela Melina Bella, com o carimbo do Juzgado de Ejecución Penal N°1 de Mar del Plata datado de 28 DIC 2018.

O pedido reclamava a abolição dos buzones "da maneira como os serviços os utilizam hoje" ou, em sua falta, que deixassem de funcionar sob a órbita do Servicio Penitenciario, "o que se refletirá na redução de tortura, castigo e disciplinamento". A apresentação se assumia como gesto: "não esperamos resultados diretos, mas sim efeitos secundários positivos", dizia o comunicado da organização.

O rádio que se fazia na prisão

Identidade visual do Projeto Mecha: uma cela em perspectiva com uma janela gradeada de onde cai um feixe de luz vertical sobre o chão; no centro o logo PROYECTO MECHA com efeito de fogo e abaixo a URL www.proyectomecha.org
Identidade visual do Projeto Mecha. O site proyectomecha.org fica online como arquivo histórico, com todos os programas de rádio.

O programa de rádio foi a aposta mais insólita e arriscada do Projeto Mecha. Foi feito nas entranhas do inferno, perseguido continuamente pelo grupo de revista, e ainda assim durante um ano inteiro, todas as semanas, o programa foi ao ar. Um deles chegou a ser gravado do próprio confinamento solitário: quando voltaram a sancionar Pampa — desta vez sem levá-lo para os buzones, mas castigado em sua própria cela — por "falta de respeito à nobre autoridade", o programa foi feito do mesmo jeito. A revista nunca conseguiu detê-lo.

Dentro da prisão se gravavam os áudios temáticos e os depoimentos, que chegavam de prisões da Argentina, do Chile e do Uruguai e de familiares na Espanha e em outros países. Depois eram enviados a três referências no exterior. Nathalia Ruway coordenava o Projeto Mecha Chile, a réplica chilena que sustentava divulgações locais em apoio à versão argentina. Gabriel Camilo coordenava o Projeto Mecha Uruguay, a réplica uruguaia com a mesma lógica. Celia contribuía desde a Espanha com apresentações, encerramentos e saudações à distância. Cada um enviava áudios que eram devolvidos ao país e, de dentro de Batán, montados, editados e reenviados a emissoras de FM na Argentina, no Chile e no Uruguai. Cada programa durava uma hora.

Faixa branca pendurada em uma marcha pública no Chile com o título PROYECTO MECHA escrito à mão e o lema '¡Privados de libertad, NO de dignidad!'; ao lado, o símbolo do A em círculo do ativismo libertário
Faixa do Projeto Mecha Chile em uma marcha pública. A consigna que sintetizou a causa: «Privados de libertad, NO de dignidad».

Nathalia Ruway há anos realiza oficinas artísticas em prisões chilenas, a partir de uma perspectiva crítica do sistema penitenciário. Quando recebeu o convite para se juntar ao Programa de Rádio, ele já circulava entre ativistas anticarcerárias vinculadas às artes. Aceitou por uma razão concreta: era ação direta, não acompanhamento de fora. As pessoas em situação de cárcere gerenciavam sua própria batalha. Terminou coordenando o Projeto Mecha Chile, a réplica chilena que sustentava divulgações locais em apoio à versão argentina.

Que o programa fosse realizado dentro de Batán para mim foi fundamental, já que me senti contribuindo com um projeto genuíno. Não éramos pessoas aliadas às pessoas em situação de cárcere — eram elas mesmas gerenciando uma batalha tremenda.

Nathalia Ruway, desde o Chile

Não pensei que o objetivo seria alcançado, mas sim que seria o motor para fazer muitas coisas, para tornar visível o horror, educar, acolher, apoiar. Mas duvidava que se conseguisse algo tão estrutural como abolir os buzones, então esse resultado me emociona muito. A estrutura repressiva poucas vezes oferece essas frestas por onde palpar a esperança.

Nathalia Ruway, desde o Chile

Espero que o programa tenha sido para vocês uma companhia rebelde, que nosso trabalho os tenha acompanhado não só esperando preencher um vazio, mas também como essa mecha que sempre pensávamos em acender. Uma mecha que buscava iluminar de dentro e também de fora, nos sentindo aliadas, aliados em uma luta que nos diz respeito a todas e todos, além dos territórios físicos.

Nathalia Ruway, desde o Chile

Gabriel Camilo escreve livros para crianças. Começou a fazê-lo dentro da prisão de Libertad, no Uruguai — uma prisão que, paradoxalmente, se chama assim —, no setor de La Piedra, segurança máxima. Com um pedacinho de lápis e folhas que os companheiros do andar de cima compartilhavam, montou livros para crianças, primeiro em formato madeira, doados a escolas públicas. Depois, a direção do Ensino Fundamental do Uruguai imprimiu uma edição em papel de Recuperar mi Libertad e a distribuiu em todas as escolas públicas do país, em espanhol e em inglês. Quando saiu, fundou Nuestros Hijos Nos Esperan, a organização que sustenta desde então e da qual vive: deixou de viver, nas suas palavras, "do que roubava", e passou a viver de seus livros. Chegou ao Projeto Mecha por Edgardo, um companheiro da Unidad 4 de Comcar, e terminou coordenando o Projeto Mecha Uruguay: a réplica local que sustentava divulgações uruguaias em apoio à organização-mãe em Batán. A amizade com Pampa ele descreve como um vínculo de admiração mútua.

Cada áudio que mandávamos para a Unidad 15 de Batán, onde o Pampa esperava para montar o programa... Uma vez o Pampa me reencaminhou mensagens de pessoas que tinham escutado lá em Londres, na Inglaterra. Wow, pensei: o grito chegou longe. Nossa voz está sendo ouvida.

Gabriel Camilo, desde o Uruguai

Uma coisa é falar daqui de fora, já passou a tormenta, não há represálias. Mas lá dentro pagam caro. Vejo muita coragem, muita consciência e muita visão no que realmente se quer.

Gabriel Camilo, desde o Uruguai

Naquele lugar tão escuro, tão cinza, tão áspero, tão úmido, tão solitário, ali alguém como o Pampa decidiu montar com um grupo de pessoas muito comprometidas esse programa de rádio e essa reivindicação: fechar as áreas de castigo, os buzones de isolamento. Essa forma asquerosa e repugnante de reprimir, castigar e humilhar a dignidade humana.

Gabriel Camilo, desde o Uruguai

A edição foi sustentada por Daniel Q., também integrante de Liberté naquele momento. Ele ensinou técnicas de áudio e edição, acompanhou durante grande parte do processo, até que a edição pôde ser sustentada de dentro. Mais tarde se somou Miguel Ángel M., hoje coordenador da rádio de Liberté.

Em abril de 2019, quando o notebook com o qual se produzia o programa quebrou, houve um gesto que marcou a rádio como poucos outros. Pampa contou para Mario e Mario providenciou que chegasse um novo, para que o programa não parasse e para que as atividades de Liberté também não. O notebook chegou por meio de Víctimas por la Paz: foi doado por Andrés Castagno e Diana Márquez — hoje secretária da Cooperativa Liberté. Uma organização de vítimas de crimes sustentando materialmente uma organização informal de pessoas em situação de cárcere. Difícil de acreditar e, mesmo assim, verdadeiro.

Os programas continuam disponíveis para escuta. Ficaram arquivados no YouTube e em proyectomecha.org. Esse domínio fica ativo como memória histórica da campanha.

31 de dezembro de 2019: a represália

O programa de rádio incomodou. No último dia de 2019, o grupo de revista da Unidad 15 entrou no Pavilhão 3 — um dos pavilhões mais pacíficos da prisão — e destruiu a cela de Pampa. Foi a única cela destruída do pavilhão. Quebraram pertences, rasgaram colchões, deixaram tudo de cabeça para baixo. Procuravam um celular. Nunca encontraram nada: o celular era usado para atividades culturais e para a produção dos programas do Projeto Mecha. Para quem assistiu, foi uma represália direta pela divulgação da rádio.

Captura do Facebook de Mario Juliano de 1º de janeiro de 2020 com fotos da destruição em uma cela do Pavilhão 3 de Batán: colchões rasgados, instalação elétrica arrancada, pertences espalhados
As fotos da destruição, publicadas por Mario Juliano no dia seguinte. "Isso não pode voltar a acontecer e já adiantei ao chefe da Unidade que, no que depender de mim, farei tudo o que tiver para evitar que se repita este episódio de violência institucional." Detalhe: o celular está em uma das fotos, mas a revista ensandecida em causar dano nunca o encontrou.

Mario Juliano publicou as fotos no dia seguinte. Anunciou que se reuniria com o chefe da Unidade. A denúncia freou a escalada. A rádio continuou.

Quem tornou isso possível

O Projeto Mecha foi uma rede. Mario Juliano sustentou o acompanhamento institucional desde o início. Diana Márquez e Adolfo Christen trabalharam de fora, durante anos, na montagem do dispositivo que Mario apresentou naquela tarde. Betina Ferrara fez o vídeo Basta de Jaulas. Josefina Ignacio freou as transferências no momento mais tenso. Juan A. da CPU esteve desde a origem. Daniel Q. ensinou o ofício da edição. Miguel Ángel M. o continuou. Nathalia Ruway coordenou o Projeto Mecha Chile e Gabriel Camilo, o Projeto Mecha Uruguay; junto com Celia desde a Espanha, deram a voz internacional do programa. Canela Melina Bella sustentou a segunda etapa, junto com La Colo e Celeste na administração dos grupos de WhatsApp. A Comisión Provincial por la Memoria e a Asociación Pensamiento Penal somaram logos, voz, respaldo institucional e ações concretas: denúncias, monitoramentos e apresentações. Muitas pessoas em situação de cárcere que enviaram seus depoimentos de unidades de todo o país, muitas vezes sem assinar, fizeram com que cada programa tivesse conteúdo real.

Hoje Canela é Promotora Territorial do Ministério de Justiça da Província de Buenos Aires e conduz o empreendimento LaReVi.

O dispositivo institucional que Mario apresentou naquela tarde se sustentou no tempo com o trabalho de outras pessoas como Ricardo Augman, Lidia Pérez, Marcela Altamirano, Larisa Zervino e outros integrantes da equipe de Liberté, junto com funcionários penitenciários como Adrián Escudero, Gabriel Cufré, Nancy Caballero e o pároco da prisão, o padre Hernán. Muitos outros contribuíram com o que tinham para que isso fosse possível, de dentro e de fora dos muros.

A lista não esgota quem fez parte. Muitos outros somaram ofício, tempo, voz ou divulgação: companheiros de dentro e de fora, MECHActivistas de vários países, familiares, aliadas e aliados anônimos. Sem essa rede mais ampla o caminho teria sido impossível.

A todos e todas, obrigado.

Pelas que não estão

Há um nome que Canela guarda. María S. morreu nos buzones da prisão de Junín. O nome dela encerra esta matéria porque não se volta atrás.

Do Projeto Mecha nunca vou esquecer María S., que morreu nos Buzones de Junín. Como tantas meninas. Marcou minha vida para sempre.

Canela Melina Bella

O arquivo fica

Achei que nos tratavam como uns loucos sonhadores, que era preciso incendiar os buzones e não pintá-los. Hoje se conseguiu que não haja mais um lugar específico de celas de isolamento como castigo, pelo menos não um pavilhão concreto.

Canela Melina Bella

Um legado que a democracia não terminou de erradicar

Os organismos de direitos humanos vêm dizendo há anos: o isolamento prolongado como ferramenta disciplinar penitenciária não é uma falha do sistema atual, mas a sobrevivência de um modelo. A Comisión Provincial por la Memoria, o Centro de Estudios Legales y Sociales (CELS) e a Procuración Penitenciaria de la Nación coincidem em seus relatórios, inspeções e litígios: as estruturas físicas dos buzones, a discricionariedade com que o pessoal penitenciário aplica sanções de confinamento solitário continuado e os regulamentos disciplinares atuais mantêm intacta a matriz repressiva surgida nos anos setenta — aperfeiçoada durante o terrorismo de Estado para isolar e incomunicar os presos políticos, e depois aplicada de maneira sistemática sobre a população carcerária comum.

É — nas suas palavras — um modelo de «disciplinamento através do sofrimento» que a democracia ainda não conseguiu erradicar das estruturas penitenciárias.

Os buzones em Batán foram abolidos. O Pavilhão 7 agora é pavilhão comum. O Projeto Mecha encerra. O site proyectomecha.org fica online como arquivo histórico, com todos os programas de rádio. A barba do Pampa, também.

Os buzones caíram, sim. Mas agora há mini-buzones espalhados pelos pavilhões, disfarçados com um nome maquiado: «Celas de Admissão».

Pampa

A mecha não se apagou. É uma pausa para recomeçar com toda a força.

Canela Melina Bella
Hitos de Liberté