Juan chegou à Unidad 15 de Batán com o peso de uma vida de trabalho no campo, mas com o fardo de não saber ler nem escrever. Hoje, diante do microfone da rádio da nossa Cooperativa Liberté, apresenta seu próprio programa de folklore e garante que, entre essas paredes cinzas e um emaranhado de grades, encontrou a verdadeira dignidade graças à Liberté: a diferença, diz, com um sistema velho e desgastado que ainda está longe das pessoas em situação de cárcere.
É o espaço da Cooperativa Liberté, um motor de autogestão que desafia o sistema prisional tradicional para oferecer trabalho, educação e humanidade. Foi ali que Juan encontrou um novo rumo.
recorda diante do microfone da rádio da Cooperativa Liberté. Seu caminho na Liberté passou por diferentes saberes, desde as tarefas na horta orgânica até a oficina de costura, onde aprendeu a fazer bolsas e mochilas. Chegou até a se aventurar na criação de galinhas, patos e coelhos, atividades que lhe devolveram o contato com a terra e os animais, algo que conhecia bem de sua vida antes do encarceramento.
No entanto, a mudança mais profunda foi intelectual. A Liberté conta com o apoio de muitas entidades civis e instituições de ensino superior, entre elas a Universidad Nacional de Mar del Plata por meio da Faculdade de Ciências da Saúde e Serviço Social, a própria Universidad Popular Liberté (ULIB), Víctimas por la Paz, SAJuR e outras instituições. Foi aí que Juan começou a acertar as contas com sua própria história: "Aqui aprendi e sigo aprendendo; não sabia ler nem escrever, muito menos usar um computador. Tudo isso eu devo à Liberté."
Matera Gaucha
Outro marco foi a descoberta da comunicação. A Cooperativa tem sua própria rádio, um espaço recuperado onde a palavra circula sem censura.
Hoje, através do Matera Gaucha, Juan transborda seu mundo de homem do campo. Entre zambas e chacareras, o folklore o conecta com suas raízes e com a audiência. "Faço o que gosto, é uma experiência linda que me motiva e me faz bem", explica com orgulho.
Uma comunidade de quase cem
A história de Juan não é isolada. Faz parte de um coletivo de quase 100 pessoas que, junto ao falecido Juez Mario Juliano — padrinho do projeto —, construiu uma comunidade que inclui marcenaria, serralheria, um armazém solidário, um restaurante e até um lago de carpas koi.
Apesar das resistências de um sistema penitenciário que às vezes não compreende esses processos de justiça restaurativa, a Liberté demonstra que a mudança é possível quando se oferecem ferramentas reais. Juan diz assim: "Para quem não conhece a Liberté, eu diria que participe. Aqui nos sentimos livres, fazemos cursos, esportes e temos uma relação muito boa entre todos. A Liberté é algo lindo, aqui não nos sentimos presos."
Fonte: Cooperativa Liberté